"Ela empurrou os óculos para a testa e seus olhos, as diferentes cores deles, os cinza e os traços de azul e de verde, adquiriram uma intensidade que parecia transpor as distâncias".
"Seu quarto era coerente com a sala de visitas: perpetuava a mesma atmosfera de acampamento. Caixotes e malas, tudo empacotado e pronto para viajar, como os pertences de um criminoso que sente a lei chegando perto. Na sala não havia mobiliário convencional, mas no quarto havia uma cama, por falar nisso, cama de casal, e bastante pretensiosa: madeira dourada com estofamento de cetim.
Ela deixou a porta do banheiro aberta e falava de lá; entre os ruídos da descarga e do cabelo sendo escovado, a maior parte do que ela dizia era inintelígel..."
"... escondi-me a algumas mesas de distância da que ela ocupava no salão geral de leitura, sentada atrás de seus óculos escuros e de uma fortaleza de literatura que ela erigira na mesa. Ela ia rapidamente de um livro a outro, detendo-se intermitentemente numa página, sempre com a testa franzida como se o livro estivesse de cabeça para baixo. Tinha um lápis pousado sobre uma folha de papel - nada parecia chamar sua atenção, mas de vez em quando, como se achasse que afinal tinha de anotar alguma coisa, ela rabiscava laboriosamente algumas anotações".
"... a personalidade média freqüentemente se transforma; em alguns anos até nossos corpos passam por uma mudança completa - desejável ou não, é natural que nós mudemos. Ela(s) nunca mudaria(m) porque havia(m) adquirido seu caráter cedo demais".
"Na verdade, para sair - sapatos de baile de cetim branco e quantidades de perfume anunciavam intenções de gala.
- Bem, idiota - disse ela, e me bateu com a bolsa de brincadeira. Estou com muita pressa para fazer as pazes agora. Vamos fumar um cachimbo da paz amanhã, está bem?
- Claro, Lulamae. Se ainda estiver por estas bandas amanhã.
Ela tirou os óculos escuros e me contemplou com os olhos semicerrados. Era como se eles fossem prismas esfacelados, os pontos de azul, cinza e verde como pedacinhos de lantejoulas".
"Já que ninguém me impediu, segui-os dentro do apartamento, que estava espantosamente destruído. Finalmente a árvore de Natal fora desmantelada, literalmente: os galhos marrons e secos espalhavam-se na confusão de livros rasgados, lâmpadas quebradas e discos. Até a geladeira tinha sido esvaziada, o conteúdo atirado por toda a sala: ovos crus escorriam pelas paredes e, no meio dos destroços, o gato sem nome de Holly lambia calmamente uma poça de leite.
No quarto, o cheiro de vidros de perfume estilhaçados quase me sufocou. Pisei nos óculos escuros de Holly: estavam caídos no assoalho, as lentes já espatifadas, os aros quebrados ao meio. Talvez fosse por isso que Holly, rígida na cama, olhasse para José com uma expressão tão cega e parecesse não ver o doutor, que, tomando-lhe o pulso, falava como quem se dirige a uma criança:
- Mas a jovenzinha está muito cansada. Muito cansadinha mesmo. Você quer dormir, não quer? Dormir...
Holly esfregou a mão na testa, deixando um rastro de sangue de um dedo cortado.
- Dormir - disse ela, e gemeu como uma criança exausta e irritada. - Ele era o único que me deixava. Que me deixava abraçá-lo nas noites frias. Eu vi um lugar no México. Com cavalos. À beira-mar".
"Não, estou falando sério. O amor deve ser respeitado. Sou inteiramente a favor da liberdade. Agora que tenho uma idéia bastante boa do que seja amor. Ele é meu amigo, me faz rir quando estou atacada..."
"Já dei uma experimentadinha em maconha. Não tem a metade do poder de destruição do álcool. E é bem mais barato, também. Infelizmente, gosto mais do álcool. Não, o sr. Tomato nunca falou comigo a respeito de drogas. Fico furiosa com o modo como essa gente desgraçada continua a persegui-lo. Ele é sensível, uma pessoa religiosa. Um velhinho querido".
"Mas, principalmente, queria lhe contar sobre o gato. Tinha mantido minha promessa: eu o encontrara. Levei semanas e semanas depois do trabalho a palmilhar as ruas do Harlem espanhol e houve muitos falsos alarmes. Por instantes eu via lampejos de pêlo listrado como de um tigre que, após inspeção, demonstravam não ser ele. Mas um dia, em uma tarde fria de um domingo de inverno de sol pálido, eis que era ele. Flanqueado por vasinhos de flores e emoldurados por cortinas limpas de renda, lá estava ele sentado no peitoril da janela de uma sala, parecendo quentinho e confortável. Imaginei qual seria seu nome, pois agora ele na certa teria um nome. Tive certeza, então, de que ele chegara a um lugar ao qual realmente pertencia. Numa choça africana ou seja lá onde for, espero que Holly tenha chegado também".
terça-feira, 12 de agosto de 2008
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Moon river
"Era uma noite quente, quase verão, e ela usava um vestido preto, fresco e leve, sandálias negras e uma gargantilha de perólas. Apesar de sua fragilidade elegante, ela possuía um ar saudável de anúncio de cereal, uma limpeza de limão e sabonete, as faces escurecidas por um rosado vigoroso. Sua boca era grande, o nariz arrebitado. Óculos escuros escondiam os olhos. Era um rosto além da infância e, no entanto, ainda não pertencia a uma mulher".
"Descobri, observando a cesta de lixo junto a sua porta, que sua leitura regular era constituída de tablóides, folhetos de viagem e horóscopos; que ela fumava um cigarro misterioso chamado Picayunes; que sobrevivia comendo queijo e torradas fininhas".
"Além disso, ela tinha um gato e tocava violão. Nos dias em que o sol estava forte, ela lavava o cabelo e, junto com o gato, um macho listrado de laranja puxando a vermelho, parecido com um tigre, sentava-se no patamar da escada de incêndio, dedilhando um violão enquanto seu cabelo secava. Toda vez que escutava a música, eu ficava parado e quieto junto a minha janela. Ela tocava muito bem, e algumas vezes também cantava. Cantava naquela tonalidade rouca e compassada de voz de adolescente. Conhecia todas as músicas de sucesso, Cole Porter e Kurt Weill; gostava especialmente das canções de Oklahoma!, que eram a novidade naquele verão em toda a parte. Mas havia momentos em que ela tocava canções que faziam pensar onde ela poderia tê-las aprendido, de que lugar viera. Melodias errantes, duras e ternas, com palavras que lembravam pinheiras e pradarias. Uma delas era assim: "Não quero dormir, não quero morrer, só quero viajar pelas pastagens do céu". E esta era a que parecia mais lhe agradar, pois muitas vezes permanecia cantando muito tempo depois de seu cabelo ter secado, depois que o sol se tinha posto e já havia janelas iluminadas no crepúsculo".
"Ela estava inquieta. Remexia nos tocos do cinzeiro, olhava para as unhas, como se desejasse ardentemente ter uma lixa; pior ainda, quando eu parecia atrair sua atenção, havia de fato um gelo característico nos seus olhos, como se ela estivesse imaginando se devia ou não comprar um par de sapatos que vira numa vitrina qualquer".
"É um pouco inconveniente não ter nome. Mas eu não tenho o direito de lhe dar um: terá de esperar até que pertença a alguém. Nós só nos juntamos um dia à margem do rio, não nos pertencemos: ele é independente e eu também sou. Não quero possuir coisa alguma até que saiba que encontrei o lugar onde eu e as coisas pertencemos. Ainda não tenho certeza de onde fica esse lugar. Mas sei como ele é".
" - Nunca se apaixone por um bicho-do-mato, sr. Bell - aconselhou-o Holly. Foi esse o erro de Doc. Ele sempre trazia bichos-do-mato para casa. Trouxe um gavião de asa partida. Uma vez chegou a trazer um gato-do-mato adulto com a pata quebrada. Mas não se pode dar o coração a um bicho-do-mato. Quanto mais amor se dá, mais fortes eles ficam. Até que estão suficientemente fortes para voltar para o mato. Ou para voar até uma árvore. Depois uma árvore mais alta. E então o céu. É assim que a gente acaba, sr. Bell. Se a gente cai na asneira de se apaixonar por um bicho-do-mato. A gente acaba olhando para o céu".
"... ela hibernou como um animal de inverno que não percebeu que a primavera chegara e partira. O cabelo escureceu, ela engordou. Ficou bastante descuidada com as roupas: chegava a sair à rua e dobrar a esquina até o armazém usando uma capa de chuva sem nada por baixo. Isto não significa que ela perdera o interesse pela vida. Longe disso, parecia mais contente, muito mais feliz do que jamais a vira antes".
"Descobri, observando a cesta de lixo junto a sua porta, que sua leitura regular era constituída de tablóides, folhetos de viagem e horóscopos; que ela fumava um cigarro misterioso chamado Picayunes; que sobrevivia comendo queijo e torradas fininhas".
"Além disso, ela tinha um gato e tocava violão. Nos dias em que o sol estava forte, ela lavava o cabelo e, junto com o gato, um macho listrado de laranja puxando a vermelho, parecido com um tigre, sentava-se no patamar da escada de incêndio, dedilhando um violão enquanto seu cabelo secava. Toda vez que escutava a música, eu ficava parado e quieto junto a minha janela. Ela tocava muito bem, e algumas vezes também cantava. Cantava naquela tonalidade rouca e compassada de voz de adolescente. Conhecia todas as músicas de sucesso, Cole Porter e Kurt Weill; gostava especialmente das canções de Oklahoma!, que eram a novidade naquele verão em toda a parte. Mas havia momentos em que ela tocava canções que faziam pensar onde ela poderia tê-las aprendido, de que lugar viera. Melodias errantes, duras e ternas, com palavras que lembravam pinheiras e pradarias. Uma delas era assim: "Não quero dormir, não quero morrer, só quero viajar pelas pastagens do céu". E esta era a que parecia mais lhe agradar, pois muitas vezes permanecia cantando muito tempo depois de seu cabelo ter secado, depois que o sol se tinha posto e já havia janelas iluminadas no crepúsculo".
"Ela estava inquieta. Remexia nos tocos do cinzeiro, olhava para as unhas, como se desejasse ardentemente ter uma lixa; pior ainda, quando eu parecia atrair sua atenção, havia de fato um gelo característico nos seus olhos, como se ela estivesse imaginando se devia ou não comprar um par de sapatos que vira numa vitrina qualquer".
"É um pouco inconveniente não ter nome. Mas eu não tenho o direito de lhe dar um: terá de esperar até que pertença a alguém. Nós só nos juntamos um dia à margem do rio, não nos pertencemos: ele é independente e eu também sou. Não quero possuir coisa alguma até que saiba que encontrei o lugar onde eu e as coisas pertencemos. Ainda não tenho certeza de onde fica esse lugar. Mas sei como ele é".
" - Nunca se apaixone por um bicho-do-mato, sr. Bell - aconselhou-o Holly. Foi esse o erro de Doc. Ele sempre trazia bichos-do-mato para casa. Trouxe um gavião de asa partida. Uma vez chegou a trazer um gato-do-mato adulto com a pata quebrada. Mas não se pode dar o coração a um bicho-do-mato. Quanto mais amor se dá, mais fortes eles ficam. Até que estão suficientemente fortes para voltar para o mato. Ou para voar até uma árvore. Depois uma árvore mais alta. E então o céu. É assim que a gente acaba, sr. Bell. Se a gente cai na asneira de se apaixonar por um bicho-do-mato. A gente acaba olhando para o céu".
"... ela hibernou como um animal de inverno que não percebeu que a primavera chegara e partira. O cabelo escureceu, ela engordou. Ficou bastante descuidada com as roupas: chegava a sair à rua e dobrar a esquina até o armazém usando uma capa de chuva sem nada por baixo. Isto não significa que ela perdera o interesse pela vida. Longe disso, parecia mais contente, muito mais feliz do que jamais a vira antes".
às
3:10 PM
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Holly Golightly
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